Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Um doce, muitos sabores.

  
Infinitas sensações. Sim... Assim ele pode ser descrito.


Das mais efêmeras àquelas que perduram por horas...
Infinitos significados, em toda sua extensão.
Dos menores aos mais aprimorados;
Dos rememoráveis aos amargos;
Permitidos ou roubados;
Por desejo ou amor (por vontade também, por que não?);
Independente da cor da fôrma...
Podem ser grandes e sutis;
Curtos e intensos;
Contidos ou espalhafatosos;
E cada um deles trará um sabor. Cada um deles trará um significado, uma lembrança, um momento, uma pessoa.
Cada um será único.
Sejam poucos, sejam muitos;
Sejam presentes ou furtos...
Apenas por amnésia serão esquecidos. E talvez, mesmo assim lá no fundo haverá a lembrança adormecida aguardando uma recordação para se sentir novamente, para se desejar novamente.
Os mais raros serão mais os procurados (até mesmo por aqueles que dizem desejar aos montes, independente de onde venham).
Os ingredientes mudam, e quanto melhores, mais disputados serão.
Mais raros serão.

Afinal, como não dizer: Com amor, mais caros serão.
                                                                                                                                                       28/08/2011

Comentários

  1. Seus textos tem o mesmo gosto daqueles doces caseiros que minha avó fazia no final das tardes de primavera enquanto eu brincava no quintal.

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