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Mostrando postagens de julho, 2017

Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Sobre resgate

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Se um dia a palavra te faltar, o medo invadir, alguém te calar... Se o dia sucumbir à baixo dos teus olhos, bem em baixo do teu nariz: Não os culpe, não se culpe, não faça escultura da culpa. Não se entregue. Não entregue as cartas, os reis, rainhas e valetes ainda irão te servir. 05/03/015

Hoje faço-me só (desejo).

Acorda que o dia começou antes mesmo dos teus olhos abrirem, antes mesmo de se dar conta, tu, que por mais um dia estás vivo. Acorda que hoje sou eu escrivã de carta própria endereçada, explícita, direta. Artista de tela nua, de pinceis despidos de vergonha ou rubor. E tenho a dizer, a pintar, a lembrar que ... se da pele tua sei o cheiro, hoje verso. Se da tua boca sei o beijo, hoje escrevo: no inverso dos lençóis amassados, no suor do colchão amarrotado, no silêncio do travesseiro meu jogado ao chão, no mudo dos teus olhos, no barulho do meu quarto, tua, minha respiração. Te desenho: na cozinha que se faz ausência, no banheiro que se faz desejo, na sala que se faz disposição, no quarto ao lado que se faz inveja. E te trago, feito cigarro, pra perto do meu peito onde posso escutar todo o barulho do corpo teu, e sentir o teu cheiro. E ser o teu desconforto ao fazer palpitar teu coração: de desejo, de suor,  de cansaço e...

Não te vá, não me deixa ir, de ti.

Como te colocar em fadado transporte sem sorte esse, pra nunca mais te ter de volta? Sem nunca mais te acessar, em memória? "De volta", como (?) sei, se nunca te tive "de vir"... Mas te tirar da mente e expulsar toda inspiração que me traz não parece o certo a fazer. Esquecer é fora de questão. De quisito. Não cogitado. Deixar pra trás,  pra aliviar espaço, pra quem (?) vier, mas... Se pra trás chover? E em tempestade desafortunada assim tu te afogar? E sofrer? E morrer de mim, em tu, assim que aos poucos morreres em mim, tu... Só de pensar não durmo. Só de pensar não sonho. Só de pens... Desisto de pensar. Desisto de te deixar partir. Seja de barco, navio ou canoa.

Sobre foco e ponteiros quebrados

Quantas horas cabem no teu olhar quando meus olhos encontram os teus? Os ponteiros feito amnesia esquecem de andar. O tempo congelado já não passa. Tudo a nossa volta para. Feito tela de galeria. Feito tinta e papel. Feito fotografia tirada em momento exato: Quando meus olhos brincando de espelho decidem se libertar do trabalho de todo dia e não querendo fazer mais nada, apenas refletem os teus. Por horas... a fio.

Fazendo de refrão, prosa

"Adeus querida Que Deus te guarde Da maldade do mundo, das lágrimas de sal Adeus meu bem, meu mundo é melhor Mesmo com a dor de um triste final" (...) Versos antigos se reiventam e tomam sentidos diversos pra diversos corações além... ... do mais às vezes escrever pro outro é mais fácil do que afundar na própria bagunça interior.