Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Barquinho de papel (azul)

Hoje sonhei com meu avô 
Que tudo preparava para encontrar minha avó 
Tudo.
Elevadores, espaço, bosque, casa. Tudo que ele achava que precisava. Para encontrá-la e com ela ficar - novamente.
Ontem fui dormir triste e acordei feliz com o sonho.
Os detalhes se sobrepuseram na memória e a narrativa não tem coesão, coerência, tampouco roteiro. Só um sentimento: amor.
Quase no final do sonho ele pegava a viola e começava a tocar música autoral para ela: Barquinho de papel.
Enquanto eu, de posse de um papel azul, tentava fazer um origami de barquinho com um pássaro para entregar a ele, quando terminasse de tocar.
Mas eu não soube terminar, me perdi entre as dobras.
Ele tocara a última estrofe quando o sonho, esse sim, terminou:
"Eu ja tava estressado 
Com aquele tanto de trabalho
Canário é igual a soldado 
Se come fora de horário 
Pode até não existir"

Acordei cantarolando, como moda de viola, me perguntando o que havia de romântico nesta canção. Talvez houvesse nos versos anteriores, mas não lembro deles, estava eu focada no barquinho e minha memória não os armazenou. 

Meu avô. Minha avó. 

No sonho uma certeza: havia ela para ele. Havia amor que não cabia em uma vida, precisavam de mais.

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