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Mostrando postagens de agosto, 2012

Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Entre degraus.

Não há luz, passos ou olhares; Onde não há sustos, barulhos, câmeras, vigias... apenas a noite entrando pelo basculante translúcido, apenas os degraus fazendo espiral no concreto, descendo até a G2. Lugar para dois. Ar impuro de satisfação, de embriaguez, de tranquilidade; silêncio rompido por estalos sem propósito, por consequência de algo maior. Lugar de fuga: permitida e procurada; do errado que por si só é certo; sem permissões, permitido sem decreto. Não há quem faça as regras, sem regras a serem ditas. Sem infrações, bom senso, preocupações, tempo. Bom tempo pra pensar no que se quer, no que se deve, no que se faz; no que resta, no que falta, no que foi. No que será e no passado ficará; No que não foi, não se precisa pensar. Sem penumbra, sem meios ou metades; apenas a sombra, duas se moldando em uma só. De pé ou de chão, sem apoio, sem canseira. Sentados ou não. Dois seres, dois corpos e um pouco mais além sem romper o mais. Nada demais,  de mais tem...