Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Justifique:


Porque eu olho por meio século para algo novo que faço, que gosto.
Porque detém minha atenção até a satisfação total, até a obsolescência total-ou não.
Porque tudo que gosto me prende; porque nem tudo que tenho me prende.
Porque vivo temendo escolhas e as faço tão inconsciente quanto pulsa meu coração (e isso me conforta numa dimensão tamanha que não sou capaz de determinar).
Porque o que eu tinha e não me faz mais falta não era assim tão meu.
Porque quem eu tinha e não me faz mais falta não era assim tão meu.
Porque não só a memória, mas a vida seleciona para sobreviver-por inteligência.
Porque gavetas amarrotadas de papéis amassados são inúteis-pra isso servem os trituradores de papel.
Porque ao passo que me desfaço de recordações, factuais ou fantásticas, algo me lembra de que havia uma cópia na escrivaninha ao lado, da qual não me recordava.
Porque nem sempre trituro as cópias encontradas depois, nada é por acaso, afinal.
Porque em meio ao que me lembra lágrimas, sorrisos aparecem.
Porque não sei mais o que justifico.
Porque não lembro mais qual a pergunta.
Nem sei mais se havia pergunta.
Mas havia algo:
Uma cascata de ideias com necessidade de ser registrada.

Um orvalho: Tremo pelo frio; sorrio porque é belo.
                                                                                                                                              31/10/11

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