Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

O pincel está respingado de tinta, mais uma vez.


Se eu te contar com todas as palavras aquilo que aqui digo, talvez tu não te contentes tanto, não disponibilize tempo para ouvir o que tentarei balbuciar aos pés de teu ouvido.
Mas então, tu me perguntas: “E como mais tu dizes se não com todas as palavras?”.
Com imagens. Quantas cenas já passaram em tua mente desde que passou por esses pequenos cômodos? Quantos sabores tu empregaste para torta tão esperada no forno ou as rosas nunca murchas postas ao lado do parapeito? Pois te digo como quem sabe por onde andas: Se todas as palavras fossem ditas e não te restasse a dúvida, teu interesse não seria o mesmo.
Desejas uma ilustração?
 Quem tem um sol amarelo num desenho, tem um sol amarelo num desenho e nada mais que seja intrigante.
Quem tem um sol num desenho, tem um sol amarelo, laranja, vermelho... Ou mesmo sem brilho, para os dias nublados.
Tu moldas aquilo que digo pois, tua sensação, teu sentimento convivem com minhas palavras e as fazem mais tuas do que propriamente minhas quando és tu quem ler.
Se, eu te dou um castelo de blocos presos, para sempre um castelo.
Se, eu te dou um castelo de blocos soltos, tu o derrubas e constrói o que te convier, e nem precisa ser uma morada.

Se para ti é teu, internalizarás; se somente meu for, não te tocarás tão pra sempre assim.

                                                                                                                                             20-11-2011//21-11-2011

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