Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Entre degraus.


Não há luz, passos ou olhares;
Onde não há sustos, barulhos, câmeras, vigias...
apenas a noite entrando pelo basculante translúcido,
apenas os degraus fazendo espiral no concreto, descendo até a G2.

Lugar para dois.

Ar impuro de satisfação, de embriaguez, de tranquilidade;
silêncio rompido por estalos sem propósito, por consequência de algo maior.
Lugar de fuga: permitida e procurada;
do errado que por si só é certo;
sem permissões, permitido sem decreto.
Não há quem faça as regras, sem regras a serem ditas.
Sem infrações, bom senso, preocupações, tempo.
Bom tempo pra pensar no que se quer, no que se deve, no que se faz;
no que resta, no que falta, no que foi.
No que será e no passado ficará;
No que não foi, não se precisa pensar.
Sem penumbra, sem meios ou metades;
apenas a sombra, duas se moldando em uma só.
De pé ou de chão, sem apoio, sem canseira.
Sentados ou não.
Dois seres, dois corpos e um pouco mais além
sem romper o mais.
Nada demais,  de mais tempo, mais de dois.
Apenas um.
De pé, de mão, sentados.
Olhos sem ver; desnecessária luz ausente.
Rompendo, caindo, descendo até...
até não passar, não ultrapassar o chão.
Descendo em espiral até o saguão.
e lá encontrar-se-ão.
No térreo, no piso onde planejavam subir
se acomodar e a sós ficar no

 Décimo Quinto andar.

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