Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Pra cura, a pele.

ou: meu caro amor platônico


Estou curada, meu caro estou curada de todos como você,
não sei qual foi o certo que encontrei entre os remédios,
talvez o mesmo tédio que te fez aparecer.
E sem ti estou vivendo, sem fantasmas ou vícios,
equinócios e solstícios sem teu rosto desejar;
o real me consome e tu que não tens nome não me vem mais a faltar.
Só porque estou curada,
amor, estou curada de todos como você.
E se lágrimas caírem, meu rosto sucumbirem
por carne e osso serão,
por amor ou ódio,
por um nome, rosto, feição.
Tato, pele e dor,
calor do corpo real;
sem imagem, imaginação,
apenas a solução: esse necessário final.
Se algum bem um dia teu vício me fez, agradeço e me despeço
porque estou curada, platônico estou curada, de todos como você.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da janela, ela lembra

About #saudade

Barquinho de papel (azul)