Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Paralelo

Talvez esteja presa ao que me prende por anos e faça dessa prisão meu lar;
quem sabe não sou eu o carcereiro, o sequestrador a pedir resgate...
posso também ser as grades, o chão e o cheiro de urina mijo (do ralo - ouso parafrasear);
o afastado quarto de cativeiro que a polícia não consegue encontrar;
à favor, contra a justiça (a lei dos homens, ouso corrigir),
encontro-me;
escondo-me;
perco-me
nesse lugar há tanto tempo que não sei, ao menos, quando cheguei, como vim parar:
Se por um furto qualquer, um um desacato à autoridade desmerecida;
Se por um sequestro relâmpago enquanto sonâmbula fazia o percurso diário,
como antes disse, não me recordo, apenas acordo todos os dias e vejo os traços na parede, as negociações ao telefone e presumo as lágrimas caindo e rostos sucumbindo do outro lado da linha.
Digo ter direito a uma ligação, mas não, dizem-me que não há linha - como não?- penso eu, se há uns instantes havia falatório lá fora...
"estás louca, havia silêncio e nada mais, deves ter inventado, aos montes acreditado no que queres se convencer"
Malditos mentiroso hão de ser!
Prisão ou cativeiro, policia ou ladrão não importa mais, se sou eu todos eles, se sou o lugar, se sou o que não sei e o pior pesadelo fui eu a pintar, a preparar aquarela e pincel, tela e jornais pela casa espalhar...
Chega, vou embora,
embora não saiba por que aqui cheguei, cansei dessa história mal inventada de frases mal rimadas que agora nasceram já deformadas sem ao menos a chance de ter a aparência que desejam ver o espelho refletir.
Se é que têm opinião...
Acabou o que restava de criatividade, acabou a paixão por hoje e quando se vai, não adianta mais insistir, não há mais o que as palavras tenham, hoje, para mim.
/31/10/ marca o calendário.
Acordo inebriada com o pesadelo da noite que teve fim.
De mente descarregada banho-me em límpidas águas do elétrico chuveiro à rugir.
Chora friamente o tanque superior, no verão desejadas, lágrimas de energia não empregada, de intenso fervor.
Deixo escorrer todo mal pensamento que ousou preencher minha mente enfraquecida que a noite - agora finda - trouxe de um lugar qualquer.
Toalha. Espelho. Café.
Livro. Varanda. Frescor.
Sem grades ou telefonemas, apenas o ar libertador da vida como deve ser, por Deus concedida e à mim cabida da melhor forma viver e ver que tudo que eu realmente precisar, Ele há de conceder.

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