Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Linhas feito flash

Vejo as fotos e lembro que não as tenho (não as temos).
Não nos vejo esbanjando sorrisos quadrados, envidraçados, obrigados por câmera presente, demonstrando felicidade, às vezes ausente, a espectadores anônimos, desconhecidos e sedentos.
 Não vejo provas dos dias vividos feito marcas de luz no papel, ou digital efeito, da alegria do momento passado (não vejo mais o passado, agora).
 Em verdade vejo, as linhas trazem-me:
teu sorriso em traço, de espontânea alegria no instante não clicado por câmera ausente de fotógrafo inexistente depois de um cego beijo, depois de desperta manhã,
tua voz
nossa pele
teu perfume
 Sem fotos
                 do sono acordado
                 do banho tomado
                 do cabelo penteado         
 Cada passo registrado aqui, na tua mente, na minha mente, que tantas fotos que fossem não seriam tão preciosas.
 Traço essas linhas e nos faço tela, sem moldura, efeito ou flash;
                                                   escrevo
                                                   descrevo
                                                   trago pra mim,
te trago assim, o mais profundo que posso, até te exalar, até me embriagar da tua permanente presença em mim.

A luz não capturada do teu tímido sorriso não o prende ao papel, mas o liberta em memória minha.

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