Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

por onde irei?

seria eu capaz de recomeçar?
sem mesmo poder ver
"o horizonte onde está"?

sairei eu da desordem,
da bagunça
da frustração
para onde encontrar-me-ei
em lugar distante
desconhecido
(des)consoante
onde o sentido, enfim, se fará
(presente)
?

saberia eu caminhar para lugar esse
sem medo de me perder
sem medo de não saber
por que caminho andar
bastando-me somente a certeza
de que independente de pra onde eu vá
o melhor da vida é (e será)
o que de fato encontrar
na ida, na volta...
enquanto eu puder caminhar
?

das cobranças fugir
da minha mente fugir
a realidade pintar
com o tom mais verdadeiro
que a aquarela possuir
sem a menor gota de desgosto
sem por um momento (des)aproveitar
sem por um momento fugir
sem medo algum de cair
nos braços do destino

por saber, por experiência ou dor
que seria ao deixar cair a certeza
ao vê-la se quebrar,
que a verdade, enfim
presente se fará
mostrando entre seus cacos
o que não pude antes ver
por nunca ter permitindo,
ao menos
vê-la se
arranhar.

22/05/2015

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