Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Já não era sem tempo!


O jantar ficou pronto. A fome eu matei.
Não há mais espera, porque dela me livrei.
Espera não há mais porque lá já estou.
De cabelo arrumado, batom passado e unha feita.
E mesmo que assim não fosse, ainda estaria
feliz por completo.
Por esses três dias, e outros que virão,
que de fácil nada têm,
de comum também não.
Mas sabe, seu moço...
é melhor que seja assim.
Me reinventar à cada tempo
faz sentido pra mim.
Enquanto houver dia e noite nessa vida,
enquanto houver vida pra ser registrada,
enquanto, for, eu, pernambucana arretada
e uma câmera eu tiver em mãos,
não há, seu moço, quem me pare...
Porque meu dia não está no futuro
ele não espero em rede, ou janela
feito moça enamorada...
Meu dia, seu moço, vara a madrugada.
É hoje e será amanhã.
Será todo dia que Deus me der
Porque Deus quis assim.
Porque eu fiz ser assim.
Desde o dia que eu decidi
Ser feliz.

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