Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Onde estão as caixas nunca etiquetadas?

 seria eu desperta. capaz de saber o que acontece?

ou será que preciso dormir para as respostas aparecerem?

uma luz, uma sombra, uma lembrança se forja em pensamento translúcido mal entendido por mim

quando os pensamentos se organizam, deixam escapar as pistas de onde eu estivera, noite passada, antes do corte aparecer em meu braço

ferida que não lembro onde consegui

as pistas não são claras, tento juntá-las e mais tarde tentar entender o que querem tanto me dizer, porque tanto machucam ainda

se não só, com ajuda da voz outra, do que ocorre ao outro, quando minha voz é ouvida

ele não pode ver meus sonhos, ou a bagunça esquecida, depois da noite de sono onde tudo parece ser organizado

embalado sem etiqueta, onde foi parar aquela caixa? aquela lembrança que responde a dúvida que eu tenho

se por vezes, acredito que no sótão, e faz sentido estar lá, por vezes parece que no armário embaixo da pia da cozinha é mais lógico encontrar

talvez eu mude, ao dormir, de lugar

talvez nunca estivera e lá eu os pintei tentando encontrar as respostas das perguntas que eu mesmo desenhei 

se não há verdade, o que resta-me é dizer

que enquanto fizer sentido, aqui estarei

e quando não mais, me mudarei para outro lugar

mudarei-me

muda irei? não, de certeza não.

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