Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

o céu de hoje

 Como tela de Michelangelo as nuvens se aproximavam de mim, foi como sonhar acordada...


O céu, telhado do teatro que eu nunca fui

Que lembro desde pequena observar

prender o meu olhar nessa enorme tensão

de não saber explicar o que eu sinto

e se vejo, de fato não sei a verdade


A certeza 

não me ocorre mais

mas tenho na memória a lembrança de outrora em que  ia ao teatro com sua poesia

e via

como era pelos olhos da criança enxergar

a vida

que vi passar

que vi chegar aos anos que antes nunca tive

a idade da idade da idade que não queria contar


E como vitrais em azul marinho e branco

que se movem e se moldam aos desejos das minhas ações

sinto-me abraçada pelo céu

de longe

bem perto de mim

e assim me sinto em casa

em casa

em casa brincar e cair e chorar

em casa acordar

para mais um dia ficar em casa

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