Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Tempo de sol escaldante com dias curtos e noites longas: Paradoxal e mais feliz

Depois da chuva, depois da névoa, e até mesmo da nevasca, enfim aconteceu. Desejado, demorado, nunca tardio. Ah, sim... Como é doce, todas as possibilidades, sem restrição- quem sabe tenha mas não interessa pensar nelas. Tudo que a tempo não se podia, tudo que há um tempo se reduzia a um futuro distante, uma promessa, uma lembrança do que já se teve e se tornou necessário aguardar.
E aguardado foi, como se todas as horas passassem como dias e esses como meses. As noites, porém, passavam como minutos, e às vezes até centésimos deles, como se num piscar de olhos o momento de evasão fosse roubado e de volta à realidade havia muito a se cumprir, de todos os lados a cobrança se fazia, e em todas as direções algo lembrava da dívida não paga, da ponta sem nó, da estação que ainda parecia distante.
É difícil dizer se é chegada a estação. O motorista continua, agora sem forçar tanto o motor, como uma motocicleta o faz descendo uma ladeira, como se tudo agora não dependesse mais da vontade de alguém, como se apenas a sensatez fosse capaz de determinar um destino, resta aguardar, agora.
O sol também veio prestigiar, como um convidado de honra, marca sua presença e proporciona ainda mais motivos para acordar. Aproveitemos e façamos o que por tantas noites mal dormidas ou mesmo dias de olhos entre abertos foi desejado, seja esse desejo qual for. Merecemos, sim. Ao contrário do fim, um começo. Dias que serão como minutos e noites que passarão como meses, esse tempo agora permitido, agora de direito invicto, esse tempo de paz.


Morangos ou doces deseje e o faça: Agora teu tempo é teu, aproveite-o antes de ser roubado novamente.

                                                                                                  19/12/11

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