Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Birra e pressa: Biscoitos, então!



- Um sorvete
- Não, senão você não almoça.
- Mas ainda falta pro meio dia e a gente tem que aproveitar cada minuto da vida.
- Então aproveite brincando, pode aproveitar sem sorvete até o almoço.
- Mas a gente tem que aproveitar da melhor forma que puder e a melhor forma agora é com sorvete.
- E se não tivesse sorvete, como seria a melhor forma?
- Biscoitos de chocolate!
- Só o que não pode?
- Você não disse tudo que não pode, só disse que o sorvete não pode. Biscoitos então!
- Mas filho, se você comer biscoitos também não vai almoçar, mas poderá comer depois do almoço e tomar sorvete à tarde. É só esperar um pouquinho.
- Eu não devo esperar, a espera cansa.
- Você vai ver, à tarde o sorvete estará ainda mais gostoso, e você poderá saboreá-lo mais e mais.
- Você quer me convencer disso, mas eu ainda acho que é perda de tempo.

29/01/2012

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