Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Lareira, convite e conversa.



Sobre tortas tenho a dizer,
sobre morangos e camadas
coberturas  tenho a fazer
e histórias das mais bem contadas.

Visite-me num dia de chuva
que em frente a lareira conversaremos
sobre paraquedas e palavras mudas
nas que mudaram vidas, focaremos.

Poderás contar para mim
o teu insano devaneio
do ócio à ouverdose, em fim
daquele inverno, sem receio.

Tomaremos chá, café, sentaremos ao chão
nada importará além da rima do refrão
do verso, da canção, da poesia
do sol, lá no alto, ao meio dia.

À noite seremos os mesmos,
haverá noite enquanto quisermos
aqui o relógio vive infermo
o atrasaremos enquanto pudermos.

À nós foi investido um poder
de guiar o que há de importante
então só precisaremos ser
amigos, compadres (ou mesmo amantes).

Sobre o tempo já foi escrito
sobre baterias e poder
sobre cama e solstício
amor, paixão, amanhecer.

Noites foram contadas
cobertores e janelas
sobre flores mal amadas
preciosas como esferas
de ouro, rubi, diamante
e o desejo do ser amante
continua guardado, à espera

(tua).


Ainda desejo saber
se comigo tomarás café
canecas tenho a oferecer
aceitaria mesmo um "Até

algum dia, boa amiga
no qual nos reencontraremos
quem sabe numa noite mal dormida
enfim, à sós estaremos".

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