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Mostrando postagens de julho, 2026

Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Inteira(mente)

O autor não existe com a poda. Não existe pela metade, por um terço e afins. Se não inteiro, é sombra, penumbra de quem poderia ser. Ao cortar as palavras não restam letras, mas destroços, nada dizem, nada respiram, nada conjugam. O autor só existe completo, sujeito de predicados - morfologicamente substantivo próprio, dono de si e mais nada - nunca será dono de palavra qualquer, de semântico qualquer, apenas amante.  Quando eu estava perdida, parecia encontrada em algum lugar distante de tudo, ineficiente, longe do progresso, do sucesso, do necessário externo. Quando eu estava perdida, encontrei o que não procurava, e portanto, desconheci. Soube na hora o que nunca cogitei: existem estados distópicos que de nada servem para os outros, difíceis de lembrar, mas que por um instante parecem um mundo inteiro. Eu fui a filha não criada, a amiga que não conta, irreconhecível para mim, eu me vi e não sabia onde estava.  "Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho", advertiu ...