Setenta
O quarto nunca ficou pronto.
Para o futuro ele foi planejado, não para o agora.
Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção.
A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus".
No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta:
"Meu Deus, quando será?"
Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas?
Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado?
O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imediatamente. A estrada é o próprio presente, não um caminho entre tempos. Cada fragmento de cada tijolo é o instante já de Clarice: Presente que já foi futuro e será passado.
Enquanto escrevo penso no meu quarto não construído, no meu relógio que, assim como o dele, só marca o presente.
Ainda não se passaram setenta anos para mim, mas já são trinta e poucos.
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