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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

eufórico baile à chuva

Um texto começa de onde a vida vem: inspiração ... seja do tipo Peter Pan e sua "Terra do Nunca" , seja do tipo de um pedido bem real, daqueles que seguidos  por um simples sim expulsam lágrimas dos olhos que não suportam mais tanta emoção e portanto dividem-na com o rosto, daqueles (pedidos) que o outro rosto igualmente ansioso junta-se ao primeiro banhando-se com suas lágrimas, deleitando-se com o desejo tão esperado; invejadas, as lágrimas destes olhos também saem para descobrir o porquê da euforia lá fora e juntam-se à cascata, descem pelas maçãs, dividem-se entre as maçãs dos rostos ainda colados, banham as bocas - cada uma, ainda, de um lado - escorrem para os ombros, braços entrelaçados e todo o corpo desejoso do mesmo anseio chora junto à elas, sorri junto aos lábios, as mãos que se sentem distantes da euforia vão às bochechas, chegam perto, banham-se e quando já bêbadas permitem aos olhos novamente enxergarem o que se passa, os ombros descolam-se, os braços desentr...

Desejo de Roska

Frustra-se com sua inquietação. Apaixona-se com sua inquietação. A paixão é frustrante o quanto é saborosa, ele perde-se por entre os dois sem querer deixar uma por desejar o gosto que a outra tem. Difícil e envolvente, deixa-se ser apaixonada enquanto se mantém aquém, enquanto não se envolve no que desperta, longe, perto pra ele, distante pra ela. Ele deseja-a, ele decide o desejo dela pela ausência do seu não , ela se mantém afastada com a  ausência do seu próprio sim . Ela não limita as palavras (de ambos) pois não suportaria "o que não foi dito além", não entende que seu mundo é distante do de quem a quer, e no mundo dele a negação do não é  sim , que não se argumenta com "eu não disse sim." As palavras pra ele não precisam ser ditas, ela joga os dados e enxerga exatamente os números; ela é intensa até na dúvida que desperta, por mais que consigo esteja certa da decisão tomada. Ele se confunde, não conhece suas armas. À mesa, do restaurante fino, depois...

Oração

Tropeço nas palavras que não encontro, antes eu podia escrever por qualquer coisa e hoje qualquer coisa não consigo escrever. Que seja um estágio, fase ou momento, momentaneamente se faça e logo se vá, que não dure, que não perdure, que fique obsoleto, desmanche e se perca no tempo longe de mim, bem longe; que a (des)inspiração de mim se esqueça e me abandone.  Que flores e cascatas, tortas e relógios, xícaras de café voltem a me embebedar. Amém.

Cuide daqui

Bata à  porta Entre por si só e fique se quiser (Enquanto quiser) Sente-se, beba, coma e adormeça. Assista tv, tome banho e permaneça. Abra as janelas, tem suco na geladeira. O café está pronto, o almoço e o jantar, mas arrume a casa se desejar ficar. Limpe a louça, o banheiro e o tapete, quando cansar, jogue-se na rede. Cuide bem daqui e não terás porque ir embora; terás abrigo, terás à mim.

Máscaras em conflito

A inspiração vem de onde não deve, mas de onde mesmo deve vir? Se sentimentos alfloram em cascata e escorregam pelos pulsos, chegam as mãos, máscaras postas são ilusão; quando se pode ver através  do rosto escondido com lágrimas caindo de ofegante respiração; que deseja se guardar para um outro não ferir,  sem saber está a demonstrar o que o próximo também sente ou imagina sentir. Mas falta a certeza e sobra o futuro desenhado sabiamente por Quem pode garantir que esse baile de fantasias sucumba  reste apenas rostos, desescondidos da verdade dispostos a amar, dispostos a saber que no fim das contas, vale a pena desmascarado viver.

Jamais monocromática luz

Tenho muitos sentimentos e isso não é de hoje Já achei que acharia a cura, e na procura enfim sanaria algum tipo de enfermidade que me convenci de ter, por não encontrar nos meus identificação qualquer. Hoje não me atormenta mais quando sou única a dizer palavras sem sentido, planos e hobbies que nada oferecerem aos desencantados pelas letras, poesias e versos escondidos do inverso de a certeza de viver. Se convencem da não-dúvida quem ao menos provariam não sei como pensam e o que pensam ao dormir enquanto em meu leito me deletito em possibilidades e julgo meu passado por um dia a mais ter deixado de sorrir. O pretérito não desejo mudar, imperfeito continuará a ser não o trocaria por um qualquer, vulgar esse perfeito que você julga ter; acabado e sem sentido, sem ao menos ter durado continuado, se extendido, uma ação, um reles passado. Minha memória e meus textos me trazem o presente de outrora vivido e descrito nessas linhas, inspirações e horas sem sono sem a...

Longe demais

Sinto tua falta mesmo quando converso contigo; tu não estas aqui, sinto vontade do teu sorriso. Tua voz me traz um tanto do que está longe de mim, mas não traz para perto, não faz a saudade extinguir. Soa estranho agora isso que sinto, portanto me calo; não sei se deveria, mas permissões não me convencem mais. O que sei é o que passa em meu peito quando é tão difícil definir, mais errado seria negar por falta de nexo existir. O porquê me falta, a explicação não vem, mas quando converso contigo, ainda assim estás longe, estás lá queria te sentir da mesma forma como quando te vejo, e  fica a falta, a sobra do desejo. Ainda que por horas contigo permaneça a falar num telefone qualquer, a lacuna se abre como um abismo que se enlarguesse. És tu, como posso me sentir assim, se te procuro para sanar a solidão que me enfraquece? Na tua presença sou forte, vício e coragem, mas quando estás longe, só me resta a saudade. 02/03/2013