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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Presente sem laço de fita, pés fincados ao chão.

  Tudo posso sentir, o que quiser posso ser porque quando algo deixo de fazer, tudo vai pelos ares. Em tudo ou nada  o maniqueísmo talvez ache morada, mas o que posso fazer se os extremos tem moldado minha vida? Tudo está junto e separado, heterogeneamente misturado e simplesmente controverso; não há o que esteja no lugar porque eu ainda não conseguir pôr: meias invadem a cozinha e há uma maçã em meu armário, na segunda gaveta próximo ao pijama... Há espaço na geladeira, mas teimo em não saber onde pôr tudo que acho, quando arrumo o imóvel e tudo encontra-se não se sabe onde, apelo pro discurso mais antigo que se conhece "não há espaço suficiente"... se você olhasse meu cabideiro veria quanto intansijente sou, isso se antes que algo possa pensar, as roupas não descerem em cascata sobre seus ombros...    Sinto que desaproveito uma oportunidade disfarçada de maldade que As mãos dO destino me concederam, pelo simples fato de olhar pelo ângulo errado , por me entregar...

De pó em, aaatchim..., pó.

   A cada espirro, um grito (mudo). Coriza e pronto, mais um dia de bagunça... a casa cai em pó e o meu nariz em greve, os banheiros choram por todos os lados implorando banho, o chão mais parece que levou na cara uma tempestade de areia, ou terra pra ser mais específica. Não há quem não esteja, ou tenha estado há pouco, imerso no mundo das greves: É olfato, paladar... só não há greve pro sono, esse é o que parece ser mais competente e com sede de trabalho (acho que eles empacotam sonífero com nomes de xarope - um dia eu testo essa teoria, ou não).   Enquanto isso a bagunça se espalha, a casa se espalha e a ordem vai lá longe... ôh pequeno minúsculo imóvel que não és compacto, quanto dó sinto de tu que adoece junto à teus moradores sem, ao menos, ter direito a um analgésico... mas sinto ao dizer, nada de vassouras por esses dias e nem que pudesses, não adiantaria espernear...   Olho pela janela: Ali, ali... "Eei, volte", tento gritar, mas sem sucesso, ela disse que...

(des) ritmadas palavras de perdão

não falta-me carinho a te oferecer... não, eu sei o quanto tu querias mais que eu fosse mais a declarar, a demonstrar, mas nem sempre assim vem, tão claras as palavras ou versos - talvez - que eu te diria ao ver o sol nascer, ou se pôr, meu amor, não faça-me só, não faça-se só, (faça) somente o som da minha voz, com um beijo teu, calar-se, faça minha mente não mais só imaginar-te, querer-te um dia mais, a mais do que estes outros que estão por ter fim  assim que estiveres próximo a mim... a água que desce pelas torneiras e chuveiros tem sabor de saudade , tenho bebido e banhado-me demais, além da sede que um dia não lembro de ter sentido...

Tomada que chove, chuva que dá choque

O mundo se contradiz a cada passo que dá e as pessoas alucinadas pela liberdade e racionalidade se perdem entre o que há de mais incerto e se contradizem junto com ele, como se lutassem contra a mesma força com a qual se aliam para derrotar. Vejo o extremismo atuando nos palcos e ditando as regras, vejo quem é contra duas piadas enquanto se deleita com as outras cem do mesmo canal de vídeos... qual o sentido? Ou melhor, mais importante, pra que? Lute pelo seu ideal... eu posso está errada, mas até hoje não vi um extremo deixar alguém feliz. Entre, está chovendo, você quer ficar gripada? Mas mãe, tá tão bom aqui, daqui a pouco entro... Tá chovendo, minha filha, você vai ficar doente! Pode até acontecer um acidente... Mãe, deixa, por favor, aqui nem sempre chove, adoro brincar na chuva! Não faz bem à saúde filha, entre! Mããe...  poças de lama... gotas e gotas de chuva, bola, bicicleta... quando ela tinha sido tão feliz?! Mãe? mãããe, A chuva passou. Chão sujo de lama, sorriso...

eufórico baile à chuva

Um texto começa de onde a vida vem: inspiração ... seja do tipo Peter Pan e sua "Terra do Nunca" , seja do tipo de um pedido bem real, daqueles que seguidos  por um simples sim expulsam lágrimas dos olhos que não suportam mais tanta emoção e portanto dividem-na com o rosto, daqueles (pedidos) que o outro rosto igualmente ansioso junta-se ao primeiro banhando-se com suas lágrimas, deleitando-se com o desejo tão esperado; invejadas, as lágrimas destes olhos também saem para descobrir o porquê da euforia lá fora e juntam-se à cascata, descem pelas maçãs, dividem-se entre as maçãs dos rostos ainda colados, banham as bocas - cada uma, ainda, de um lado - escorrem para os ombros, braços entrelaçados e todo o corpo desejoso do mesmo anseio chora junto à elas, sorri junto aos lábios, as mãos que se sentem distantes da euforia vão às bochechas, chegam perto, banham-se e quando já bêbadas permitem aos olhos novamente enxergarem o que se passa, os ombros descolam-se, os braços desentr...

Desejo de Roska

Frustra-se com sua inquietação. Apaixona-se com sua inquietação. A paixão é frustrante o quanto é saborosa, ele perde-se por entre os dois sem querer deixar uma por desejar o gosto que a outra tem. Difícil e envolvente, deixa-se ser apaixonada enquanto se mantém aquém, enquanto não se envolve no que desperta, longe, perto pra ele, distante pra ela. Ele deseja-a, ele decide o desejo dela pela ausência do seu não , ela se mantém afastada com a  ausência do seu próprio sim . Ela não limita as palavras (de ambos) pois não suportaria "o que não foi dito além", não entende que seu mundo é distante do de quem a quer, e no mundo dele a negação do não é  sim , que não se argumenta com "eu não disse sim." As palavras pra ele não precisam ser ditas, ela joga os dados e enxerga exatamente os números; ela é intensa até na dúvida que desperta, por mais que consigo esteja certa da decisão tomada. Ele se confunde, não conhece suas armas. À mesa, do restaurante fino, depois...

Oração

Tropeço nas palavras que não encontro, antes eu podia escrever por qualquer coisa e hoje qualquer coisa não consigo escrever. Que seja um estágio, fase ou momento, momentaneamente se faça e logo se vá, que não dure, que não perdure, que fique obsoleto, desmanche e se perca no tempo longe de mim, bem longe; que a (des)inspiração de mim se esqueça e me abandone.  Que flores e cascatas, tortas e relógios, xícaras de café voltem a me embebedar. Amém.