Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Prazer comportado.

Queria escrever algo que me inspirasse algo maior e o desejo fosse crescendo e por minhas mãos tomando forma até que pudesse ler e duvidar que meus punhos seguraram a pena que criou tal cena. Uma cena, sim, com detalhes e cores, sensações e amores, sabores, odores tudo que há de necessário para sentir, sinestesiar até o fim, até que não haja fim, para não se desejar que acabe, para desejar o amanhã, a eternidade da lua, que a manhã tarde e o Sol tenha preguiça de nascer, para que o amanhã seja tarde, seja longe, seja depois; porque a noite, ela sim será capaz de contar o que tenho a dizer, para que se possa, se queira apenas desejar.

O corpo é necessário, mas seja só de corpo e tu não serás satisfeito.

Já foram cachos, camadas e cascatas.
Já foram cama, lamparina e varanda.
E hoje são apenas tudo de uma só vez,
todo luxo e prazer que emana
de seus corpos não despidos em loucura;
de seus olhos nus a procura
de algo maior que pudessem encontrar,
de algo novo que os levasse a desejar
que a noite permanecesse acesa
longe do dia, do sol e da manhã;
perto do chão, das cadeiras e mesas
quem sabe como recosto, um divã:
confortável e aconchegante
emanando o desejo de saber
o que se passa na cabeça do amante
quando o corpo ferve em prazer
e a alma congela ao perceber
os olhos que encaram os seus,
o medo, a dúvida e as mãos;
o rosto, a fúria e tensão
de quando o jogo está para acabar
o gosto que sabe-se que irá perdurar
até o último ato tocar
quando ao chão vai-se a resposta
e ao início daquela envolvente história,
(da vida ou da morte de alguém)
os dados irão te levar.


Posso acreditar que meus punhos seguraram tal pena,
fica para uma outra noite o desejo concretizar.

                                                                                                                                  17.07.2012

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da janela, ela lembra

About #saudade

Barquinho de papel (azul)