Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Cuide daqui

Bata à  porta
Entre por si só e fique se quiser
(Enquanto quiser)
Sente-se, beba, coma e adormeça.
Assista tv, tome banho e permaneça.
Abra as janelas, tem suco na geladeira.
O café está pronto, o almoço e o jantar,
mas arrume a casa se desejar ficar.
Limpe a louça, o banheiro e o tapete,
quando cansar, jogue-se na rede.
Cuide bem daqui e não terás porque ir embora;
terás abrigo, terás à mim.

Comentários

  1. Saudade de entrar, jogar a mochila no canto da sala, pegar uns biscoito, sentar no sofá e conversar.

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