Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Número errado. Noite longa.

O que aconteceu com o sorriso escondido que por vezes se fez disfarçar? As flores no jardim parecem pálidas nesses dias de rotina injusta, esse sol que teima em dormir, cair em profundo sono enquanto se deseja fazer festa, enquanto se acorda disposta a amanhecer juntamente com ele, mas nada...
"Já passam das seis, por que a noite ainda não acabou?"
O que teria acontecido naquele dia de preguiça? Será que a ampulheta escorregou e no tempo se perdeu? Quanta areia ainda há por cair...
"Por que não amanhece?"
Teima em perguntar, sem entender aquela escuridão, sem entender o frio que a abatia, que adentrava pela fresta da janela pela qual mal se podia enxergar um passarinho cantando (qual passarinho?)...
"triiiim, triiiim"
"Alô?" - quem seria a uma hora daquela, quem poderia estar acordado num dia tão preguiçoso que mal se levanta...
"Alô? Eu gostaria de encomendar um abajur, o meu não funciona mais desde essa semana e estou me vendo louco para ler meus livros a noite, não posso ascender a lâmpada do quarto enquanto meu filho dorme"
"Desculpe, mas..."
"O  que? Vocês não estão trabalhando com entregas imediatas?"
"Não é isso..."
"Então, podem fazer? Então pronto! Deixo a encomenda confirmada. Um abajur com lâmpada fluorescente, tamanho médio, ligo depois para saber o orçamento, agora estou com pressa tenho que pôr meu filho na cama"

"A. Alô? Senhor.. Alô?"
"tum tum tum"
 A noite caíra de certo mais cedo que sempre, adormeceu à tarde e achava que já havia amanhecido, procurando a claridade lá fora, enquanto do outro lado alguém encomendava um abajur... Enquanto se sentia fria por dentro, escura como a lâmpada apagada do quarto sem livro, à noite.
O que podia tudo isso significar?
Provavelmente nada.
Olhava na agenda: "ArtEmluz xxx 36802734" enquanto seu número era "xxx 38602743"
Foi no jardim, ascendeu as lâmpadas coloridas que havia posto como uma rede, sentou-se e deixou-se banhar pela brisa de começo de noite... viu-se deslumbrada aproveitando toda aquela não mais escuridão confortável.
Adormeceu.
Na manhã seguinte, enquanto alguém ainda dormia no jardim, em meio ao trabalho rotineiro, a atendente, portando crachá e uniforme de cor preguiçosa, onde pode-se ler "ArtEmluz", atendia o telefone:

"Alô?... desculpe senhor, não há alguma encomenda de abajur médio, mas podemos providenciar."

04/09/2013 09:02 PM

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