Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Telescópio

Involuntário medo não é a decisão  mais primorosa
mas o tenho, não sou feita só de primor, veja bem...
a sensação de não caber em mim
faz-me sentir não pertencente a onde estou
rezo a Deus a pedir ajuda, a suplicar Sua presença
até no sono cair.
incondicional Amor O tenho, como afinal deveria ser?
diante de prova maior: o sofrimento, a morte, para que Seus filhos pudessem viver.
nos meus dias, sim acho-me acolhida quando me encontro perdida ao olhar pro espaço
ou ao menos meu arredor, se daqui a beleza, os olhos, cega, imagine de lá?
wow!
De algum astro a visão deve ser inimaginável,
talvez eu pertença a outro lugar
acima daquela estrela, à esquerda do satélite, acima das nuvens...
acima da minha mente,
além do que vejo,
além do que penso,
além
do que um dia, como carne humana,
fui (e serei) capaz de pintar.

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