Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Mámemória

       

Sempre perco as referências,
não sei sobre nomes ou autores,
só o que fica é o que disseram.
Sempre esqueço o caminho, quando vou pela primeira vez
não guardo traços ou lugares, me perco, desacompanhada
porque minha mente guarda pouca coisa, algum perfume, uma palavra, uma atitude,
mas no fim ou começo sempre esqueço de algo que jurarei ser importante.
Como não dá pra lembrar de tudo e já sabendo que esquecerei,
posso perguntar  uma, duas ou mesmo três (vezes)
pra que eu não esqueça,
pra que na memória se guarde
e na caixinha das lembranças
se confundam, teu jeito, perfume e tua pele;
pra caso um dia esqueça teu nome
te veja mesmo de olhos fechados,
te desenhe;
te trace;
te verse.

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