Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Dia desses

No teu corpo fiz morada dia desses
Fiz barulho, bagunça e surdez
Te fiz mudo, no mundo do meu quarto fiz um trato
Comigo mesma e contigo sem que soubesse

Dia desses minhas paredes calaram-se segredo
E meu travesseiro se recusou ao chão
Meu lençol se embebiu em teu cheiro
Tua pele fez suar meu colchão

Mas dia desses não é pra todo poente
Todo Solstício, equinócio ou verão
É pra folhinha dos dias guardados

Sem chaves, quem dirás sete
Sem vestes
De colo quente: memórias
01/02/17

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