Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Não te vá, não me deixa ir, de ti.

Como te colocar em fadado transporte
sem sorte esse, pra nunca mais te ter de volta?
Sem nunca mais te acessar, em memória?
"De volta", como (?) sei, se nunca te tive "de vir"...
Mas te tirar da mente e expulsar toda inspiração que me traz não parece o certo a fazer.
Esquecer é fora de questão.
De quisito.
Não cogitado.
Deixar pra trás,  pra aliviar espaço, pra quem (?) vier, mas...
Se pra trás chover? E em tempestade desafortunada assim tu te afogar? E sofrer? E morrer de mim, em tu, assim que aos poucos morreres em mim, tu...
Só de pensar não durmo.
Só de pensar não sonho.
Só de pens...
Desisto de pensar.
Desisto de te deixar partir.
Seja de barco,
navio
ou canoa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da janela, ela lembra

About #saudade

Barquinho de papel (azul)