Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Três

Moço dos olhos distantes, como vai?
Onde te escondes, quem nem em redes sociais
compartilha 8, 16,
quem dirás 32 poses?
Uma só que seja
no fundo da foto de outro
mostrando parte da tua orelha?
Assim fico eu recorrendo à memória,
vaidosa me lembro das três vezes que te vi.
Três.
Mesmo que só te reconheça em duas
(a primeira tu és tipo mancha de verniz)
mas ainda assim são três.
Moço, por que escondes tua voz?
Se falas tão bem de brigadeiros, óleo de coco, batom vermelho e aldeídos;
Camões, Vinicius e café com nescau...
Será que falas de mim? Duvido.
Em verdade, tenho certeza que não.
Porque enquanto tu
te ocupas de outras curvas,
outros olhos,
outros cheiros,
eu, nessa prosa te desenho,
feito romântica de segunda geração 
fujo pro passado,
fazendo dessa noite de novembro,
25 de dezembro.

16/nov

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da janela, ela lembra

About #saudade

Barquinho de papel (azul)