Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Entre palavras e tempos e uma porta (ainda) fechada

Não soube te dizer não
E sim não me saía
Como tivesse perdido as palavras, parece que só acordes fazem sentido agora...
Queria te dizer alguma coisa
Mas não sou tão esperto assim, e alguns vocábulos se perderam, coragem foi um deles.
Ela não me pede por palavras
Pra ela posso doar menos
Talvez seja essa a decisão, porque pra ti sei que tenho pouco a oferecer.
Tu me faz lembrar do que falta em mim e é mais fácil te perder do que buscar e me rasgar e me resgatar de mim.

Dobrado sem jeito em papel de caderno deixou na minha bolsa, sem remetente porque até o nome perdera a capacidade de escrever. Aquela coragem desapredinda o impossibilitara de assinar as próprias palavras tardias e que apenas repetiam tudo que eu já sabia. Não foi preciso assinatura para ter certeza que aquelas letras tremidas de arrependimento e atraso eram dele, antes amigo, hoje passado.

Li três vezes o bilhete nunca recebido, como quem exige uma satisfação impossível de reconhecer em seus olhos. 
A carta me acalma, me faz saber que há história verídica, há passado e depois dele sou diferente, porque fui tudo que hoje sou pra mim.

Ainda levo a carta na bolsa. Todo dia. E ela por pouco me fez ir embora 5 min antes da minha vida mudar de novo. Como um peso necessário, que ainda faz sentido. 

Por sorte ou destino fiquei e esperei a hora certa. Os 5min passaram. Um perfume senti. Músicas, bandas, já me identifiquei! Queria querer a ti. Queria não mais ter aquela carta na bolsa, mas preciso ser honesta com a gente. Tudo isso penso enquanto ele sorrindo fala qualquer coisa com seus olhos verdes e barba bem feita. 

Não sei exatamente de onde saem as palavras, não é o mais importante. Só quero escutá-las. Confortável, suspiro, só pra mim. 
Tu sabe falar. Tu quer falar. Meu Deus!
E quando silencia ainda conversamos.

Não seria encontro único. Não foi.
E contei sobre meu coração partido, pra ele eu posso.
Enquanto eu me curo te quero por perto. Só pra te ver enquanto não rasgo aquelas palavras que ainda guardo embaixo do travesseiro, que ssussuram aos ouvidos.
E se tu se diz saudoso é quando te quero mais.
E quando cozinha, tenho ciúmes de quem come: Faz só pra mim.
E se em sonho aparece, não deixo ninguém mais entrar.
Porque ainda não te deixei entrar 
Em coração meu.

Fica moço, vamos ser companhia
Do jeito que fizer bem ao coração
Vamos falar todas as palavras para que não haja suposição
Mas se dizer nada for tua decisão
Saberei que esse mesmo nada é o que desejas.

22/03
09/04

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