Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

twenty eight

Mais um mês que meu útero se despe da tarefa de gerar um novo ser.

Por dois meses ele se manteve inerte, 
por preguiça ou descrença,
nem fez questão de se arrumar todo.

Já pensando na decoração do mês que vem, 
hoje ele se desarruma enquanto me contorço de dor. 

Bêbados, meus hormônios dançam no meu colo.
Esbarram no ponche,
sangria
vinho e 
barris de bebedeira escorrem por mim, enquanto tento dormir.

Vão descansar,
por favor

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