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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Sem consolo

Não tem jeito. Não me acostumo e essa história de depois melhora é farsa de consolador barato. Lágrimas podem não cair mas basta estar a caminho do guichê que me vem a saudade mesmo quando és tu quem me levas à compra. De passagens nas mãos sinto todos os dias de saudade que virão. As semanas passando como tartarugas e as noites mal dormidas entre lençóis frios, suo de calor que o ventilador ameniza, mas o frio não passa, gelando meu peito, minha mente procura no escuro aquilo que ela não vê, aquele que não vem porque sei que te terei dias a mais, mas enquanto não chegam tais, procuro te pintar em cada brecha de luz que ilumina um móvel pelo quarto e permite-me desenhar tua feição, teus traços, enquanto meu travesseiro traz teu cheiro, onde outro dia esteve só, a recostar tua cabeça, meus lençóis, mesmo outros, guardam teus contornos e eu quero que tu estejas ali. E por saber de tudo isso hoje durmo em saudade, como vivendo as próximas semanas nesses minutos. Amanhã estarei contigo, m...

Pra cura, a pele.

ou: meu caro amor platônico Estou curada, meu caro estou curada de todos como você, não sei qual foi o certo que encontrei entre os remédios, talvez o mesmo tédio que te fez aparecer. E sem ti estou vivendo, sem fantasmas ou vícios, equinócios e solstícios sem teu rosto desejar; o real me consome e tu que não tens nome não me vem mais a faltar. Só porque estou curada, amor, estou curada de todos como você. E se lágrimas caírem, meu rosto sucumbirem por carne e osso serão, por amor ou ódio, por um nome, rosto, feição. Tato, pele e dor, calor do corpo real; sem imagem, imaginação, apenas a solução: esse necessário final. Se algum bem um dia teu vício me fez, agradeço e me despeço porque estou curada, platônico estou curada, de todos como você.

Desbagunçada desordem.

Há roupas penduradas em todos os lados exalando teu perfume pela casa.  A camisa que não serve mais, esquecida depois da otimização do espaço do guarda roupas, rasgada próximo ao joelho que ficou por ser consertada, mas logo foi substituída por uma mais nova, mais moderna, me fez lembrar da falta de linha na máquina de costura. Há linha branca mas não serve,  a bermuda é preta e ficaria muito óbvio que foi remendada, portanto ela permanecerá esquecida até a linha ser comprada. Há roupas penduradas que me lembram que não preciso organizar o quarto. Esqueceria fácil onde cada peça foi guardada, prefiro assim: tudo ao alcance dos olhos, das mãos, palpáveis peças que me trazem teu perfume, que me fazem enxergar teus olhos, tocar teu sorriso; peças marcadas por tuas mãos, moldes traçados a partir de teu corpo, desenhando tua presença em todo o imóvel, embebedando minha mente com as lembranças não mais somente tuas. 24/11/2012

Ma-mais 5 min...

Tranquila noite que se molda por entre lápis e pincéis. Foram semanas de sorrisos escondidos e alguns escandalizados, mas sem muito a se comemorar, de fato. Não é lá pessimismo, mas uma realidade prática demais, na qual a beleza teima em se esconder, em não ficar visível aos olhos dos que a deseja todos os dias. Não são péssimos dias, mas também não são os mais radiantes. Fica o desejo escondido de noites cegas e beijos mudos, de aconchego, cafuné e preguiça. - Meu bem, o vento está  forte demais, fecha um pouco a janela? - Quer mesmo que eu levante? Tão aconchegante aqui... Fecha ali? Ambos permaneceram ali, parados, deitados sem um movimento que insinuasse um passo. A cama já possuia seus contornos e tão confortáveis como estavam, era impensável levantar. Eram 2h da manhã quando o vento começara a soprar forte e a persiana balançava intensamente, mas não o suficiente para encorajá-los a levantarem-se. Persiana esquecida abaixada já que o vento tinha cessado aquela semana e ...

Tu

Quem és tu quer lê esse texto agora? Estás certo que não poderias ser outro caso a teu lado outro ser se portasse? Tu és personagem de teu convívio e se outros formassem tua família, outros gostos seriam experimentados e tua percepção sobre a vida mudaria o foco. Quem és tu que dança ao vento e se distrai com uma tulipa que desabrocha? Sabes que poderia nem conhecê-la caso houvesse nascido em outro país? Em potencial tu gostarias de tulipas mas jamais saberias da admiração que hoje tens. Conhece-te pelos que te cercam, e se outros fossem... ah jamais poderás responder, afinal não trocaria-os por um reino, não trocaria por ouro aqueles que te fazem gostar de tulipas. Se gostas de torta de morango e teus conviventes saboreiam-na também, tu tendes a saciar a sede ainda mais frequentemente, quando, se tais não gostassem, tua vontade poderia ser sucumbida como um raio que cai sobre a casa perdida no deserto e a destrói para nunca mais voltar. Se a ti é permitido viver segundo teus pen...

Codificado segredo.

Tudo uma vez e de uma em uma, unicamente se faz. Jamais duas. Impensáveis três. Repetir é proibido, voltar é atemporal.        De sete em sete chaves guardei o que alguém um dia disse nunca existir.    Guardei o tempo.    Guardei a lembrança do que ainda, do que nunca, aconteceu. 08-15.05.2012

Rosa dos ventos quebrada

Como quem não sabe seguir o próprio risco, quem muda de direção depois de desenhar uma placa, como quem pinta um sol de azul (querendo transformá-lo em nuvem depois de definir o traçado), fazia de seu poente, o leste.  No momento cegava-se e deixava-se levar por uma direção falsa e depois, apenas depois se dava conta do que havia feito (do que não havia deixado acontecer). Sua falta de motivos, seus tortos parâmetros faziam-na se perder por entre o certo e o errado, as definições retas demais a aprisionavam numa redoma desconfortável da qual ela não sabia como sair (quando pensava em sair). Havia não que soava como sim , havia sim que deveria ser não e deixava de haver o que deveria ter sido, vivido para só depois concluir a falta de importância que teria (ou mesmo viver incondicionalmente o bem que nem a mente seria capaz de supor). Mas sempre desviando das placas, só assim sentia-se segura, só assim se esquivava do que desenhava. Sempre se convencendo que essa seria a melh...