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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Sobre memória, spoiler e futuro

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E hoje meu dia se faz leve Deixo pra ontem o que se foi E pra amanhã o que não sei Sobre o tempo, a dúvida se faz E a cada incerteza do futuro O desejo do dia diferente Ainda não residente (na memória) Dê ao homem o poder de saber o futuro e logo se animará por antes de todos conhecer tudo que irá ocorrer mesmo que não possa mudar. Até que um dia perceberá que sua vida se tornou memória, como um livro já antes lido, uma história já antes contada, de conhecido, o futuro se tornará passado, ao passo que, em sua mente, já foi. Aí saberá que jamais, novamente, poderá degustar o sabor do desconhecido, a expectativa do inusitado e então  soterrado pelo tédio desejará o que não conhece, algo novo que não mais acontece, mas em vão será sua prece. O desejo antes valioso se tornará martírio; Pra se livrar desse mal, demorada oração; E frente ao medo de jamais se surpreender e de viver na mediocridade de saber que tudo que um dia viverá já está em sua memória, grita...

E se?

E de tanto me dizer, nunca quis ouvir Se tanto te julguei foi por não entender Eu nunca confessaria, veja bem "Você está certo" ah faça o favor! O que seria mais fácil acontecer? Cada fio meu de cabelo cair E mesmo assim eu diria que não Estava eu desencontrada de mim Sendo assim como poderia concordar? Tendo em vista escolhas descabidas Inventando prisões desmerecidas Versões erradas do meu ser Enquanto vivia a falta, a ausência... Renunciando sem pestanejar, ao tempo Como quem sucumbe a própria vontade E desconsidera a própria importância Raramente vive o que deseja Tendo em vista que mal sabe O que de fato precisa ? "Do braço a torcer a pensar em concordar contigo..." 17/07 22:51 h

por onde irei?

seria eu capaz de recomeçar? sem mesmo poder ver "o horizonte onde está"? sairei eu da desordem, da bagunça da frustração para onde encontrar-me-ei em lugar distante desconhecido (des)consoante onde o sentido, enfim, se fará (presente) ? saberia eu caminhar para lugar esse sem medo de me perder sem medo de não saber por que caminho andar bastando-me somente a certeza de que independente de pra onde eu vá o melhor da vida é (e será) o que de fato encontrar na ida, na volta... enquanto eu puder caminhar ? das cobranças fugir da minha mente fugir a realidade pintar com o tom mais verdadeiro que a aquarela possuir sem a menor gota de desgosto sem por um momento (des)aproveitar sem por um momento fugir sem medo algum de cair nos braços do destino por saber, por experiência ou dor que seria ao deixar cair a certeza ao vê-la se quebrar, que a verdade, enfim presente se fará mostrando entre seus cacos o que não pude antes ver por nunca ter...

Sobre pesos e prisões

o que cansa mais que a rotina senão a tristeza? o que exausta mais que as obrigações senão o peso que se carrega sem obrigação? a vida é leve meu bem... leve-a como uma dádiva sem incorrer no erro de trazer para si algemas que nunca foram tuas, não abaixe a cabeça, não se submeta, não se prenda, se martirize, não deixe que te enquadrem, ouça menos, faça mais. Arrisque mais a arrepender-se mais e se arrependerá menos porque todo o risco é válido, porque tudo é menos complicado do que parece, é menos pesado do que parece... desmistifique, sonhe, cante, dance... dance mal, dance bem... só dance. Vá até onde ninguém foi. Seja o que ninguém um dia foi... o que você nunca foi. 10/06/15

continuação

(...) ainda é difícil enxergar olhar além do que se vê quem um dia irá saber, o horizonte, onde está? Onde reside o desejo, o futuro da memória não vivida o mar amante, o cortejo ao sol, ao fim, ao começo (da vida). Como rearranjar as pedras que nos levarão ao monte que tanto se sonha, se tudo está fora de ordem, se tudo parece se encontrar no vão. Como fazer do presente caminho pro futuro desejado, onde está esse tempo, assim, não conjugado que não se vê, mas se quer que não se apalpa, mas se sonha seremos nós eternos amantes do desejo de outrora?

doce salgado mar de outro, algum, qualquer lugar

e às vezes eu queria voltar de tanto querer ir não sei quando eu quis sair lá da beira daquele mar sem mais alguém barrando o sol sem mais alguém fazendo companhia pra aquela praia triste e fria como um peixe e seu anzol já não sei onde quero estar onde estando seria feliz já não sei onde repousar onde descansar o mal que a mim mesmo fiz ao perder de todas, uma chance duas, três e não sei mais devo ter deixado pra trás o que me faria ir adiante onde entre sonhos me perco e a distância encontro eu diria em outro versos que ainda são em outros tempos que ainda não passam no mesmo embalo dos ponteiros nunca tão ligeiros como o voo de um falcão

Amigo,

se cansa-te, o dia casa-te contigo com o que há de mais verdadeiro, exausta-te e no teu ser encontrará o amor que mais puro há de haver em teu sangue, em tua mente. Se cansa-te, a ti mesmo doa-te um pouco pro outro, ainda não tão cansado e divide o peso pra que amanhã, quando tu não tão cansado estiveres, o outro doe-se um pouco (pra ti). 23/07/2014