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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Intermitente estado

Vestida de moral em conflito, despida de certeza e solidão, vejo a vida feito prosa e a verdade feito lampejo daquele que acaba antes do último suspiro, como a estrada que muda à cada curva, como o espelho que reflete diferente imagem quando nele distinta feição encara seu (fadado) destino.

Sobre ser o teu amanhã perfeito, hoje.

Não te afliges, pequena menina De tão poucos anos e tanto aperto no peito Não te culpas por sentir demais Se é o coração feito pra dar vida a tua alma. Sorri, grande mulher E vê em espelho teu o reflexo de quem queres ser amanhã Seja hoje o teu amanhã perfeito Seja feito prosa, poema ou canção Quem sabe, ainda, um soneto Pra quando a vida metrificar Que ainda assim seja possível Expressar todo teu amor (guardado) Por um alguém ou vários Seja amigo ou amante De uma noite ou alguns anos Porque o tempo, menina, já é relativo E só depende dos olhos teus A maneira que (a vida) tu desejas Enxergar. 18/06

Memórias feito prosa

De tantos em tantos tempos de constante transição; entre cachos feitos e cortados,  desfeitos à mão. Seria essa vida então construída (de) lamparinas, varandas e ampulhetas, sono, socorro e entrelinhas, de um alguns versos ainda não escritos [Por sorte (e) por espera do tempo que ainda vem] de folhas ainda em branco esperando da areia que estar por cair lembranças ainda mais intensas daquelas que na memória fazem morada.

Louco

Adj. m. Aquele que vive como se não houvesse amanhã, aceitando o risco de haver.

Por hoje

Por hoje decidi que não mais uma noite de só prazer ocupe toda minha semana. Decidi que o tempo no meu quarto, cabelos umidos e coração seco é pouco. Decidi por menos adeus quando a manhã acorda e mais pelo que o coração almeja, seja lá o que for. Decidi que o tempo pode durar mais ou menos, mas que há de haver sentimento nos momentos de companhia. Decidi saber mais Querer mais Conhecer mais Gente. Que o cheiro do meu travesseiro é precioso e não há espaço pra quem eu decida não querer.

Dia desses

No teu corpo fiz morada dia desses Fiz barulho, bagunça e surdez Te fiz mudo, no mundo do meu quarto fiz um trato Comigo mesma e contigo sem que soubesse Dia desses minhas paredes calaram-se segredo E meu travesseiro se recusou ao chão Meu lençol se embebiu em teu cheiro Tua pele fez suar meu colchão Mas dia desses não é pra todo poente Todo Solstício, equinócio ou verão É pra folhinha dos dias guardados Sem chaves, quem dirás sete Sem vestes De colo quente: memórias 01/02/17

Mais um ano de presente

Feita de água do mar beijada pelo Sol, ela encanta do mais distraído ao mais preparado dos marinheiros que por descuido encontre seus olhos, que por audácia ache que é imune a seu canto,  por inexperiência de não conhecê-la. Menina moleca de batom vermelho. Amiga pras horas, minutos e tortas de chocolate, coxinhas e sequilhos. Pra quando amargam os ponteiros, abrem-se as comportas de choro, desespera-se a alma, ela traz colo, sossego e sinceridade. Traz potes de tempero e mel, guardados na gaveta até hoje. Traz dias de moradia, de adoção, de lápis de cor. Leva um pedaço quando vai, pra gente ir visitar. Traz Deus no coração, a alma enfeitada e os olhos grandes e negros. Traz mais um ano de vida, de presente pra gente. Que sejam muitos outros mais pra que quando a saudade vier visitar, a gente possa ir lá buscar o pedacinho que ela levou.