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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Da janela, ela lembra

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imagem editada a partir da original Da janela, ela vê a porta pro mar de água salgada que agora escorre pelo rosto e lembra da saudade do amor vivido. Amor replicado nos corações nascidos gerações depois. Da porta para o mar, ela vê a areia que o vento faz ir embora, vento que assopra o coqueiro levando o cheiro (dele) pra longe da gente, para perto da certeza de que a vida se fez como o desejo que se realiza.  A porta pro mar é a prova de que não houve lugar melhor para descansar o corpo e a alma.  Sem coincidências, sem destino, a decisão consciente e deliberada, que até pode ter sido construída feito sonho, foi vivida, imensamente vivida na vida de vigília.  Todos os dias, diante da porta pro mar. A imagem nasce feito sonho: um pouco do que a gente lembra da vida de vigília, um pouco do que a gente quer que seja; e vem para ilustrar a saudade sentida e o amor eterno de uma vida que continua além da porta, além do mar, além do imaginável. Para sempre, seja e...

Barquinho de papel (azul)

Hoje sonhei com meu avô  Que tudo preparava para encontrar minha avó  Tudo. Elevadores, espaço, bosque, casa. Tudo que ele achava que precisava. Para encontrá-la e com ela ficar - novamente. Ontem fui dormir triste e acordei feliz com o sonho. Os detalhes se sobrepuseram na memória e a narrativa não tem coesão, coerência, tampouco roteiro. Só um sentimento: amor. Quase no final do sonho ele pegava a viola e começava a tocar música autoral para ela: Barquinho de papel. Enquanto eu, de posse de um papel azul, tentava fazer um origami de barquinho com um pássaro para entregar a ele, quando terminasse de tocar. Mas eu não soube terminar, me perdi entre as dobras. Ele tocara a última estrofe quando o sonho, esse sim, terminou: "Eu ja tava estressado  Com aquele tanto de trabalho Canário é igual a soldado  Se come fora de horário  Pode até não existir" Acordei cantarolando, como moda de viola, me perguntando o que havia de romântico nesta canção. Talvez houvesse nos v...

O tempo que leva (enquanto provamos)

AI-generated Image Dentre diversas vidas, a que escolhi não estava no menu. Nenhuma estava ou está. Descontínua, de coccão interminável, nunca estará pronta e assim nunca terá nome, tampouco preço. Nos resta provar cada etapa com a canto da mão ou a colher que voltará para a panela. De custo imensurável, deixa para traz tudo que podia ser e não foi, as reações não permitem retorno e qualquer tentativa de assumir  como seria  esbarra no que  é . A gente escolhe sem saber que está escolhendo. A gente controla temperatura, umidade, mas sempre há uma variável que transforma aromas em outros, nunca sentidos, e diante de tantas mudanças só nos resta supor que ainda lembramos do aroma anterior, sem muita certeza. "Como seria se" tonar-se uma expressão sem resultado, nenhum sabor surge daí, senão o amargo intenso. "Como será se", por sua vez, abre espaço para ideias, uma ansiedade boa para o que há de vir; descobrir, planejar e arriscar, encontrar no futuro o  como será ...