Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Aannnh

"(...) Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz"

E imaginação minha
é sua.
Desejo meu não se contém.
Boca minha que a tua não conhece,
inventa.
Pele minha que teus dentes nunca viu,
ensaia.
Com a espera não se contenta
E pinta
Poetisa
Esculpe:
Teu dorso no lençol.
Tua cor enebriando o quarto.
Teu cheiro embebido no travesseiro
E em mim
Em toda parte de mim
Que sou capaz de sen-tir.

Por sinestesia. Por sinapse. Por desejo.

Curiosa, durmo.

(...)

É quando mais te sinto.

25/04/18

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