Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Noite planejada

Colocou o vestido tom pastel, uma rasteira e sem maquiagem saiu.
Ela queria ir de macacão, mas na lavagem, manchara.
Queria ir maquiada, mas sua mala de mão, na viagem extraviara e era um domingo à noite, nenhum salão funcionava, não conhecia ninguém naquela cidade.

Queria usar salto, mas esquecera de por na bagagem.

Então ela foi de vestido claro, de rasteira e rosto limpo pra festa.

Certeza que passaria vergonha.
Mas foi.

Nada planejado havia ocorrido.

Tudo parecia errado.

Tudo que ela queria não aconteceu.

Até o lugar da festa mudara.

Pegou o táxi. Mostrou o lugar no mapa.

Chegou na praia.

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