Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Tudo

Por anos vivi entre aqueles que tinham interesses outros. Hoje vivo no cerne do que pra mim faz sentido e me sinto superfície. Superfície no meu próprio mundo. 

Por anos aprendi a ser média, mediana, mediocre. Aprendi a decorar frase feita do que pessoas dedicaram a vida para descobrir. Uma frase de cada um, como se aquele mínimo pudesse resumir a vida de dedicação  de quem foi tudo, tudo agora numa página de caderno. 
"É importante saber um pouco de cada coisa"
Frase feita enraizada num esforço monumental de 10? 16? 25 anos..

De volta a meu mundo encontrei pessoas que são tudo e assim me tiram da superfície quando lá insisto em voltar. Tiram-na de mim. Como quem arranca um mal pela raíz. 
E pra dentro trago, pra perto do peito, tudo que quero ser. Tudo que faça sentido. 
Agora.
Tudo.

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