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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Gosto de gostar do gosto que tem.

- Você é exatamente o oposto do que as pessoas dizem que eu devo gostar. E eu não gosto desse jeito que as pessoas dizem. - Então você gosta de mim. - Só porque eu não esperava que fosse encontrar alguém assim. - E se esperasse? - Logo depois me convenceria que não seria possível. Eu gosto de descrições. Discretas descrições que te façam imaginar. Gosto dos detalhes como onde estava a meia perdida, ou qual a cor do cabide da blusa que Enfim eu encontrei. Gosto do que as pessoas não enxergam cotidianamente e que teimam em me convencer não ser importante. Gosto dos de olhos penetrantes. Gosto do gosto das palavras de quem gosta do que eu gosto. Gosto de gostar do que ninguém gosta e assim me sentir menos cinza nessa paisagem metrificada. Gosto de morango. Gosto que significa o gosto que eu provo não que eu gosto. Mas ainda assim eu gosto de morangos. - Não sei quando comecei a gostar de você. - Quando você reparou nas minhas unhas. - Por que acha que eu gostei d...

O contrário do desejo.

Eu realmente desejo, agora, que com algumas palavras eu possa esboçar um verdadeiro sorriso num rosto banhado por lágrimas. Frias lágrimas, como uma cascata que eu diria não poder ser contida tão facilmente, mas que foi consolada pelos mais dignos que poderiam existir. Escrevo como quem pede um sinal para uma ideia, algo que me venha à mente e me surpreenda de uma forma que eu não posso nem imaginar agora. Então escrevo. Espero que sejam doces e acalentadoras, espero que sejam confortantes ou minimamente agradáveis palavras. Cenas. Pensamentos. Que tragam pensamentos bons, que façam olhos sorrirem, se os lábios não sentirem-se prontos para tal. Desejo que elas me transportem um pouco mais pra perto e me permitam sentir um pouco mais de perto. Por mim, elas tomariam outro rumo e não seriam apenas doces, mas acho que isso não viria a calhar agora; cafunés, disso que eu preciso. Palavras que sejam como cafunés, daquelas que afagam e te fazem dormir, como uma história de mãe, como u...

Cotidiano.

Viver é incrível. P ermanecer apenas vivo é um porre!

Degraus e pincel.

Em mãos aquarela e pincel. Na tela alguns pontos e pronto: Beijos respingados de tinta, avental manchado e nada mais a fazer quando a orquestra começa. Nem todos ouvem o que se passa, não há violinos, violoncelos ou mesmo um piano; não há maestro ou partitura: A tela faz sua melodia, os acordes se moldam e apenas os de avental borrado escutam. Há uma fragrância, mas não há flores; sabor, mas não há morangos; calor, mas não há sol. Não há tempo nem relógio. Sobram pingos de tinta, sobram risos. Primeiro: Um furto, um registro e passos largos, eufóricos atrás da prova. Segundo: Uma permissão, não mais fotos, ainda fuga. O tempo se aproxima do fim, a tela não parece completa, mas há uma encomenda e essa tem prazo determinado. A orquestra para. As fragrâncias cessam. Os passos ecoam no corredor.      Restam os degraus: Testemunhas da verdadeira concretização sinestésica .                 ...

Camadas: Um ritual.

Chocolate derretido, taças e taças dele. Uma panela no fogão, esquentando o ar em volta, seduzindo o cozinheiro. Precisava terminar a calda de morango para finalizar sua torta de dupla cobertura. Precisava terminar antes que ela chegasse, seria seu primeiro aniversário como namorado dela, nada podia dá errado. Campainha. Receita não finalizada. Ele teria se atrasado? Como poderia... Relógio. Ela estava adiantada, ele sempre reclamando da não pontualidade dela, justo naquela tarde ela chegara cedo. Campainha. Passos corridos. Porta aberta. Os olhos se cumprimentam, depois os lábios. - Você está adiantada, você nunca se adianta. - E você se acostumou com meus atrasos. - Eu não gosto quando você se atrasa. - É, eu sei, você é chato. - Quando você se atrasa, passo menos tempo com você. Ele ouve algo borbulhar, lembra-se do fogão. Sai correndo. Colher a postos. Volta a mexer a calda que por pouco não gruda no fundo da panela, velha panela onde sua avó já fizera muitos dos d...

Uma necessária satisfação.

Às vezes, a pausa é necessária e você só entende quando ela tem fim. Pensavam que precisavam de uma rotina. Alguém havia decidido isso por eles. Decidido sobre suas vidas como se decide um sapato que se compra: Não de forma aleatória, mas sem poder prever se um dia aparecerão calos. Esse alguém não poderia (nem pode) saber que rumo tomaria suas vidas caso a rotina fosse decretada. Mas, depois de noites de sono e algumas mal dormidas, uma decisão foi tomada (por esse mesmo alguém):  Eles são donos de suas vidas e apenas compartilham comigo momentos seus, os detalhes. A rotina é como a de todo mundo, e se fosse para contar o que todo mundo vive, não sei se eu mesma seria capaz de prometer ouvir com tanta atenção, como até agora, o que eles tiveram (e tem) a me dizer. Justamente para ouvir o que há de singular que eu tomei (e tomo) xícaras e xícaras de chá, chocolate quente ou café, em frente a lareira enquanto meus ouvidos permanecem atentos às palavras ditas, meus olhos desen...

Assim, acordados.

Quase uma meia luz, o vento canta como quem desejava acordar aquele casal do transe em que se encontrava. Sabendo que provavelmente não seria suficiente, manda folhas secas, caídas desde o início do outono, na direção dos dois corpos ali parados. Abaixam os olhos, finalmente. Cabelos ao vento. Folhas no pescoço. O frio voltava à cena. Os pés podiam sentir a grama. Movimentam seus corpos. Em fim, saem do transe. Entreolham-se. Sorriem. Sentiam seus pelos arrepiados, o corpo reclama a anestesia sem efeito. Ainda havia lua, mas agora estavam no mundo em quem não podiam se privar das sensações indesejadas. Entram no carro. Partem para casa.                                                           ...