Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Camadas: Um ritual.


Chocolate derretido, taças e taças dele. Uma panela no fogão, esquentando o ar em volta, seduzindo o cozinheiro. Precisava terminar a calda de morango para finalizar sua torta de dupla cobertura. Precisava terminar antes que ela chegasse, seria seu primeiro aniversário como namorado dela, nada podia dá errado.
Campainha. Receita não finalizada. Ele teria se atrasado? Como poderia... Relógio. Ela estava adiantada, ele sempre reclamando da não pontualidade dela, justo naquela tarde ela chegara cedo. Campainha. Passos corridos. Porta aberta. Os olhos se cumprimentam, depois os lábios.
- Você está adiantada, você nunca se adianta.
- E você se acostumou com meus atrasos.
- Eu não gosto quando você se atrasa.
- É, eu sei, você é chato.
- Quando você se atrasa, passo menos tempo com você.
Ele ouve algo borbulhar, lembra-se do fogão. Sai correndo. Colher a postos. Volta a mexer a calda que por pouco não gruda no fundo da panela, velha panela onde sua avó já fizera muitos dos dias de seu neto felizes.
Ela ainda estava à porta. Fecha-a. Ele ainda ao fogão. O aroma daqueles “morangos derretidos” invade a respiração dela, agora não mais à porta. Ele deixa a colher cair. Desliga o fogo. A calda estava pronta. Deixaria esfriar um pouco.
Eles adoravam aquilo. Quilos e quilos de doces beijinhos sem cravo. Sem coco. Sem leite condensado. Minutos e minutos de abraços. Mãos e braços de entre abraços compassados pelo ritmo do aroma do chocolate derretido, da calda na panela, da nua torta posta à mesa aguardando a cobertura que tardava a protegê-la.
Havia chegado a hora, a esperada hora daquela tarde, tarde do dia em que ela fazia aniversário. Prepararam-se. Ela ajudava-o retirando o revestimento. Foram até a mesa. Ali estava seu presente para ela, delicado e trabalhado presente. Faltava o toque final e eles o fariam juntos. Com as taças destampadas estavam prontos: Uma camada, a segunda por cima. Sem rugas ou falhas. Estava pronto. Estava feito. (Per)feito.
Eles adoravam torta de dupla cobertura. Sempre na ordem: Primeiro ele com a de morango, depois ela com a de chocolate. Um ritual. Uma história. Uma rotina.
A mesma torta de antes, mas naquela tarde nada seria como antes.


                                                                                        25/01/2012

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