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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Alguém entre alguéns

Minha respiração parou. Ponteiros, nuvens e alguéns . O vento não mais dançou. Por um instante aquele que meus olhos congelaram em ti. Passaram os dias meses anos. Hoje tudo anda, nada mais para. O vento dança, o tempo inteiro. Somos alguém entre alguéns que também passam. Que às vezes param. Quando na multidão estranhos olhos por amor ou sorte, congelam.

Adrenalinamente

A curva do teu sorriso, feito montanha russa, por hora me faz perder a fala, por hora, encontrá-la em estado desumano, desesperadamente tentando gritar o que ninguém entende. Eu não entendo. Explica-me?

Sobre tu

Algo de bom vai acontecer quando eu te vejo Ou parece que vai Se vai, não sei Espero que sim. Algo de bom vai acontecer quando te vais? Então vai E apaixona-te por alguém Por ti mesmo, talvez E fica Faz, de tu, coração e alma Divide, soma, forja-te inteiro Encontra-te.

Who are you?

Big eyes, pink skin big mouth Nothing, but a woman. Black little balls, long dress, pixie hair, Nothing but a woman. Everything

Noite planejada

Colocou o vestido tom pastel, uma rasteira e sem maquiagem saiu. Ela queria ir de macacão, mas na lavagem, manchara. Queria ir maquiada, mas sua mala de mão, na viagem extraviara e era um domingo à noite, nenhum salão funcionava, não conhecia ninguém naquela cidade. Queria usar salto, mas esquecera de por na bagagem. Então ela foi de vestido claro, de rasteira e rosto limpo pra festa. Certeza que passaria vergonha. Mas foi. Nada planejado havia ocorrido. Tudo parecia errado. Tudo que ela queria não aconteceu. Até o lugar da festa mudara. Pegou o táxi. Mostrou o lugar no mapa. Chegou na praia.

Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada Porque amor não te torna boba Muito menos avoada Quem inventa tais asneiras É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele Mas há tempos que mulher manda na vida E se apaixonada ai que mais forte fica Vira Lisbela Vira Tieta Gabriela Rosinha Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta... Pode ser o que ela quiser E ai se for mulher nordestina é que lascou-se Tanto forró Tanto cuscuz Tanto borogodó Faz qualquer desejoso por mulher Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão Quando descendente de mulher casada com Lampião Aparece em tua frente Passa do teu lado Deixa seu perfume Te olha dissimulada Te faz perder a pose Lembrar da sapatilha Compor um blues E até francês falar É pai... cuidado Tem jeito não ...

Aannnh

"(...) Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz" E imaginação minha é sua. Desejo meu não se contém. Boca minha que a tua não conhece, inventa. Pele minha que teus dentes nunca viu, ensaia. Com a espera não se contenta E pinta Poetisa Esculpe: Teu dorso no lençol. Tua cor enebriando o quarto. Teu cheiro embebido no travesseiro E em mim Em toda parte de mim Que sou capaz de sen-tir. Por sinestesia. Por sinapse. Por desejo. Curiosa, durmo. (...) É quando mais te sinto. 25/04/18