Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Paris, um barco e uma colher de pau.



Na terra da Torre
Nas águas um barco
Nas mãos uma colher.
Sem destino, sem chegada, sem partida. Apenas ali.
No barco, eu.
Na margem, alguém para o qual eu mostrava saber remar.
Remar com uma colher.
Na terra da Torre

Uma canoa podia ser. Lugar para um, um remador.
No meio da cidade, perto da lá.
Uma lagoa, sem proa, sem chão.
Sem cidade, sem cidadão.
Apenas um, apenas eu.
Apenas o barco, a lagoa e a colher.
Descanso.

Depois do oceano, onde tudo é mais cedo.
Onde o dia nasce logo.
Onde a noite é paixão.
Onde à noite foi um sonho.
Que já de dia, acordei.

Tudo na Terra da Torre.

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