Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Transcendendo os mundos.

305, depois de passar pelo 303, depois de atravessar o corredor e se deparar com uma pequena porta, ela pôde ouvi-lo balbuciar.
Ele esteve ali, tinha certeza disso, ou talvez, ela estivera lá.

E de certeza pôde narrar quando ele chegara para o almoço.
Antes mesmo de deixá-lo entrar, antes mesmo que ele pudesse pronunciar algo.
- Sabes o que senti ao saber que tu chegara de viagem?
Ele tentou dizer algo, expressou apenas, pois fora interrompido pela cascata das palavras dela:
- Às  12:09h da tarde, senti teus dentes em meus lábios: Superior, inferior.
Desejei sentir até amanhã, até o fim do mês, até novamente te ver.
Desejei sempre sentir.
Abri os olhos, não mais te vi.
Você não estava aqui, não esteve aqui.
Fechei os olhos, você não voltou.
Teus dentes em meus lábios, às 8:00h da manhã.

Hipnotizado como se ela portasse um relógio de ouro.
Mais doce que a realidade não há, ela pode ver.
Ele estava ali.
Ela pode sentir:


Dentes em seus lábios.

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