Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Sabendo pra onde ir, só vai...

Sobre sonhos muito sei:
Travesseiros e olhos (ora) fechados,
abertos;
Ora sim...
Agora!
Hora de sonhar,
de acordar,
de fazer.
De sonho, vive, o homem
quando sabe o homem viver.
Porque de sonho, morre, o homem
quando deitado em esplêndido berço
se convence que sonho cabe na mente,
e acha que só porque sente,
verdade haverá de ser.
Mas não! Sonhar tem a ver com o corpo todo:
Com acordar, levantar, trabalhar ou mesmo cair.
(Vez que sim...)
Há de haver suor, prazer e cansaço.
Ah... se há!
E sonho só é sonho quando sai do travesseiro,
pega estrada e chega.
Onde? Me perguntas...
Te respondo com a sabedoria de capa de caderno de papelaria:
"Siga seus sonhos...eles sabem o caminho."

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