Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Grata

Eu te digo adeus
à Deus
até Deus.
Fica, se quiser, e cuida de tu.
Que eu cá, já fui e tô cuidando de mim.
Não te preocupas comigo
Nem dedicas teu tempo a chamar minha atenção.
Que sem tu eu tô bem.
Contigo não é minha melhor escolha
Comigo, me amo mais.

Nesses tempos de solitude
Tenho revisitado pensamentos
e advinha só?
Só te acho no passado.
Lá tu estás, em vestido de gala, linda como rainha.
Lá te guardo bem, e a essa memória sou grata. Faz de mim quem sou.
No passado, te guardo.
No presente, quero distância
tua

Minha decisão.

09.04.2020

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