Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

pra depois de dançar

dançavam pelo salão
e o perfume do vento
com suas mãos suaves a abraçar
aqueles que não viam, mas ouviam
os cantos dos cochichos dos casais outros aos ouvidos

os segredos eram tantos que se faziam música além do moço do violão
(em segundo plano)

como penetra na festa de gala
os sussurros somavam-se em valsa
ritmados pelos corações
dos esperançosos que trocavam informações
que sentiam na pele a respiração

com seu ritmo próprio

seu desejo próprio
de ser mais

além do segredo
além da dança

além do salão

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