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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Sem ruídos, sem roídos.

Não mais ouço o estalar dos dentes esfomeados a dilacerarem as unhas por fazer; não vejo mais unhas por fazer. Por oras escuras, às vezes claras (quase nunca claras). Os escuros deixam resquícios por trás delas e o claro não fica de fato claro, permanecem, portanto, escuras. Roxas, vermelhas, pretas-azuladas. Miragem, Gabriela, hip hop . Humor ou quem sabe tempo. Passa-tempo sem tempo pra perder. Tempo que falta pra pintar telas, pra escrever cores. Nunca perfeitas . De tempos pra cá, sempre feitas .

Destino traçado e alguns balões de festa.

Caso pudesse, abordaria todos os pixels nessas linhas, mas não caberiam no tempo que tenho, meu relógio reclamaria e sua bateria acabaria antes que eu chegasse na metade; minha memória me trairia e não seria capaz de cumprir tal promessa, daí prefiro dizer: De um pouco falarei, mas não considere menos importante o que ficar omitido, ou mesmo não apareça nas entrelinhas, já que muito ficará para contar numa próxima parada, para pintar numa próxima tela.  Telas, acho que posso começar assim. As cores já foram de um todo: De pastéis à vibrantes, mas de fato predominantes nos tons de azul. Desde sempre, desde tuas primeiras aquarelas, de teus primeiros passos (não voltarei tanto assim, afinal, não posso me estender).   Bom, tua presença aqui no imóvel é fato, mas venho a registrá-la pela primeira vez.  Lembro de cartas, hoje estariam amareladas, que te escrevi falando de brigas e o apesar delas, como lembro de tu que dizias que eu sempre escrevia sobre. ...

Outros degraus, um corrimão.

O conhecimento traz o gosto. O gosto, o perfeccionismo e dele  vem a dedicação, ou será o contrário? Especificamente, o viaduto não será alterado pela ordem dos tratores (poderia ser o produto e seus fatores e as cores, mais uma vez, não mudariam). Nesse caminho a gente perde, mas aprende que decisões são excludentes e as prioridades devem compor, senão os degraus, o corrimão da escada.  Bom que seja o corrimão, daí a gente se apoia e não caí. Daí a gente se segura e pode até dançar uma valsa, um forró mais descomprometido ou mesmo um tango com uma rosa na boca, se o caso for de sedução. Se o problema do futuro é a gente não saber quando as prioridades vão mudar ,  o presente nos intimida à escolher mesmo sem saber se de fato iremos acordar, se os ponteiros vão avançar, se a gente vai gostar de quem a gente já gostou, se a Terra, enfim, continuará girando. Mas não importa e nunca importou. O futuro está onde nunca esteve, já que ainda não passou, de pretéri...

...queijos e goiabadas.

Aconchegar: O ato de se aproximar com um ar inocente que faz todo o mundo desaparecer. Perto. Mais perto. Perto até tocar.

Contagem regressiva em busca da tela ainda não tecida.

Cada dia preciso de um baú maior para o que tenho a dizer. Chegará o dia que precisarei de um baú grade o suficiente para todos os baús. E de baú em baú precisarei de dois cômodos, quem sabe três . De três em três um um pavimento. De dois não passará e terei um teto. E terei um imóvel. um, dois, três... o que virá depois? três, dois, um. Uma necessidade.

Sentido por sentido: Finalidade.

    É como manter-se calado. Tem a mesma utilidade de falar com as paredes num quarto de portas fechadas. É como estar no calabouço de olhos abertos ou no cinema de óculos escuros . Como escrever para um cego ou balbuciar para um surdo. Desejar comentários de um mudo ou esperar carícias de um maníaco.    Mas mesmo assim a gente continua, a gente escreve como se alguém fosse ler, não alguém, mas o alguém. A gente escreve e se sente dizendo, se sente conversando. A gente finge que disse e depois dar-se conta do fantástico momento que passou.    Nesse sentido é inútil, mas não em todos os sentidos.    Transpor os sentimentos para o papel é como provar de uma fruta desconhecida: Ela está ali, diante dos olhos, seu sabor é inalcançável até que se prova. Escrever é provar, provar da fruta já existente (sentimentos e afins) e assim conhecê-la, e assim poder falar sobre, entender, gostar ou não.    Mas a gente nunca quer só conhecer. A...

Extrapolando

São dois minutos antes do exigido. São poucas linhas e muitas ideias não claras. É pouco tempo para quem tem muito a dizer; é muito tempo para quem não quer ouvir. Para alguém com uma pedra de gelo na mãos, qualquer segundo é eterno; como um intenso beijo que poderia durar a noite inteira (Inverso). Foram dois minutos. Agora três.