Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Contagem regressiva em busca da tela ainda não tecida.

Cada dia preciso de um baú maior para o que tenho a dizer.
Chegará o dia que precisarei de um baú grade o suficiente para todos os baús.
E de baú em baú precisarei de dois cômodos, quem sabe três.
De três em três um um pavimento.
De dois não passará e terei um teto.
E terei um imóvel.
um, dois, três... o que virá depois?
três, dois, um.
Uma necessidade.

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