Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Sentido por sentido: Finalidade.

    É como manter-se calado. Tem a mesma utilidade de falar com as paredes num quarto de portas fechadas. É como estar no calabouço de olhos abertos ou no cinema de óculos escuros. Como escrever para um cego ou balbuciar para um surdo. Desejar comentários de um mudo ou esperar carícias de um maníaco.
   Mas mesmo assim a gente continua, a gente escreve como se alguém fosse ler, não alguém, mas o alguém. A gente escreve e se sente dizendo, se sente conversando. A gente finge que disse e depois dar-se conta do fantástico momento que passou.
   Nesse sentido é inútil, mas não em todos os sentidos.
   Transpor os sentimentos para o papel é como provar de uma fruta desconhecida: Ela está ali, diante dos olhos, seu sabor é inalcançável até que se prova. Escrever é provar, provar da fruta já existente (sentimentos e afins) e assim conhecê-la, e assim poder falar sobre, entender, gostar ou não.
   Mas a gente nunca quer só conhecer. A gente quer manipular, mesmo fantasticamente, o que se escreve, manipular para alguém, destinar e se convencer.
   Há vezes, porém, que não há destinatário e ai sim, escrever é satisfação puramente pessoal. Não há a preocupação com o leitor. A gente lê uma, duas, três vezes e não se cansa porque aquelas palavras transpõe tanto o que se sente que é como uma mágica realizada. É de uma satisfação imensa e desejamos continuar a ler, quantas vezes forem possíveis, até a possível (não provável) obsolescência atingida. Improvável, mas, às vezes (mais uma vez) acontece, porém não há motivo para preocupação, caso isso ocorra, não faltarão novas palavras para serem escritas, novos textos ainda não obsoletos, novos em si, até a exaustão. 

Escreva. Prove. Delicie-se.

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