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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Menina dos olhos mutantes

Menina do sorriso de fita de cetim Menina dos olhos recessivos por hora Menina não sabe bem o que sentir Só conhece o desejo que vai e volta Letras e as músicas fazem-na sorrir Tom e a voz fazem-na chorar Sabedoria sabe faze-la feliz Menina sem pé de samba quer dançar Não, não sei bem quem ela é pois não decide ao menos o tom dos cabelos a colorir en-tão veja bem, ôh solidão que deseja o seu coração vá embora, que a saudade já passou Menina que dança feliz pela rua que cuida de quem não pode pedir que brinca com a infância que nasceu depois que sempre está pronta pra sorrir Menina  não poupa o que dizer por horas estás a brigar com aquele que diz tortas palavras com aquele que não quer lhe respeitar A inocência se faz em face dela acorda, dança e com ela dorme sua pureza transpira em  pele fazendo-se de suor, de sal,  perfume Menina que voa com os pés no chão está interessada no que não pode ver vive em mundo só seu, num balão vive ...

Desejo de expressão

 o inverso na forma de verso deixa no verso do papel o pensamento ao contrário

Linhas feito flash

Vejo as fotos e lembro que não as tenho (não as temos). Não nos vejo esbanjando sorrisos quadrados, envidraçados, obrigados por câmera presente, demonstrando felicidade, às vezes ausente, a espectadores anônimos, desconhecidos e sedentos.  Não vejo provas dos dias vividos feito marcas de luz no papel, ou digital efeito, da alegria do momento passado (não vejo mais o passado, agora).  Em verdade vejo, as linhas trazem-me: teu sorriso em traço, de espontânea alegria no instante não clicado por câmera ausente de fotógrafo inexistente depois de um cego beijo, depois de desperta manhã , tua voz nossa pele teu perfume  Sem fotos                  do sono acordado                  do banho tomado                  do cabelo penteado           Cada passo registrado aqui, na tua ...

Trocando as engrenagens, expondo as feridas

Há tempos tenho perdido partes da minha memória por momentos, os mais importantes - por sinal - é como se o parafuso de um relógio folgasse justamente à meia noite, quanto todos esperam as doze badaladas. Sinto-me caindo nos meus pesadelos, como se de tão assustadores eles estivessem se tornando reais, aquilo que um dia eu temi, a seda que separava o caminho do certo àquele do fracasso estivesse se rompendo e tudo se misturando e eu não conseguisse separar. Sinto-me não sendo "posta a prova", mas como uma espécie de rearranjo da mente: primeiro o desarranjado, depois a ordem, como uma "limpa" no armário: você tira tudo, faz uma pilha na cama e depois recoloca apenas aquilo que realmente importa, apenas o vital, o que não for, dar-se outro fim.  Sinto-me assim: numa cama com pilhas e pilhas de roupas e perfumes e hidratantes e sapatos, sem conseguir encontrar um pente, mas ao mesmo tempo sabendo que haverá uma hora em que tudo estará, novamente, no seu devido lug...

(In) cômodo

Quarto. Era o quarto cesto que ele enchia com suas ideias abortadas de textos mal terminados e pensamentos jogadas ao vento. Era no quarto parágrafo que ele estava quando arrancou aquela folha que agonizante se prendia a sua mão embebida no suor, implorando por misericórdia, implorando para não ir ao fadado destino das anteriores, implorando por uma chance de ser o que ele desejava, mas não adiantou e ainda com mais raiva pela dificuldade de dela se livrar, amassou-a como nenhuma antes e jogou no canto, o mais longe que pôde atirar. Nem o ventilador, nem a obra do prédio ao lado, nem o bebê que pedia atenção conseguiam tirar dele o silêncio que havia em sua mente e transcorria por suas mãos. Tanto tinha sido escrito e nada tinha sido dito que ele se sentia vazio e ao mesmo tempo sufocado por não ter conseguido expressar o que tanto o aborrecia.                                       ...

Paralelo

Talvez esteja presa ao que me prende por anos e faça dessa prisão meu lar; quem sabe não sou eu o carcereiro, o sequestrador a pedir resgate... posso também ser as grades, o chão e o cheiro de urina mijo (do ralo - ouso parafrasear); o afastado quarto de cativeiro que a polícia não consegue encontrar; à favor, contra a justiça (a lei dos homens, ouso corrigir), encontro-me; escondo-me; perco-me nesse lugar há tanto tempo que não sei, ao menos, quando cheguei, como vim parar: Se por um furto qualquer, um um desacato à autoridade desmerecida; Se por um sequestro relâmpago enquanto sonâmbula fazia o percurso diário, como antes disse, não me recordo, apenas acordo todos os dias e vejo os traços na parede, as negociações ao telefone e presumo as lágrimas caindo e rostos sucumbindo do outro lado da linha. Digo ter direito a uma ligação, mas não, dizem-me que não há linha - como não?- penso eu, se há uns instantes havia falatório lá fora... "estás louca, havia silêncio e na...

Sabe-dó-ria: Saber ao som do riso - ou não.

Sinto falta dos meus entre os seus onde estou. Sinto falta de quem me quer bem mais além de quem eu pareço ser, veja bem, não sou. Assim são meus dias, tecidos em meios estes, escritos por tortas linhas onde me pintaram estar, mas sou mais do que as palavras determinadas por alguém - não sei quem - que diz que devo aceitar e daqui não me retirar. Digo ser bobeira e fico assim, sem medo saber que o mesmo motivo que aqui me trouxe há de me levar pra um outro lugar (mais conhecido e novo) o qual não sei porque temei em deixar. Ou quem sabe eu saiba, na verdade sei, se fez de academia, me ensinaram Platão, teorema e funções; nas coordenadas eu me vi de rosa dos ventos quebrada e latitudes trocadas hoje estou a sentir: saudade do litoral, da brisa manhã maninha, a cidade do (carnaval, ao qual eu não ia) e hoje poderia ir -não gostando assim- só para saber, só para sentir, que ai estou, que estou de volta, que não me rendi. 08/09